por Ivie Leone e Raysa Pires
A largada foi dada: o XIV ENECULT começou! A abertura do Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura foi marcada por uma mesa de debate composta por mulheres pesquisadoras de diferentes vivências e pensamentos. Com o tema “Culturas e resistências: artivismo, identidades e política”, as convidadas Adriana Facina (UFRJ/UFF), Janja Araújo (UFBA) e Michelle Mattiuzi (Performer), mediadas por Gisele Nussbaumer (UFBA), discursaram sobre a importância da resistência da cultura e trocaram experiências sobre seus objetos de estudo.
O auditório do Teatro ACBEU estava lotado de ouvidos atentos às discussões sobre o lugar da arte, do ativismo e da resistência na esfera da cultura. Dando início aos trabalhos, a antropóloga Adriana Facina abriu a mesa fazendo um paralelo entre o contexto da sociedade atual e a dificuldade das culturas em pertencer e existir. Com estudos focados na indústria cultural e experiências urbanas, destacando a cultura do funk, a professora afirmou que cultura e resistência são temas que devem ser lidos sob a ótica da sobrevivência, principalmente na atual conjuntura política no país.
O estudo de Adriana pensa o fazer artístico atravessado das opressões de classe e raça, no que chama de marca militante sobre a arte, e exalta a lógica da diferença, do contraste em que estes/as atores/atrizes da arte urbana, reflexiva, periférica e negra estão colocados/as. O estado da sobrevivência não permite a inércia e convive com os processos de enfrentamento e negociação. Sendo assim, defende que o desenvolvimento das políticas culturais deve estar sustentado por uma prática social marcada pela resistência e pelo conflito, pensando as demandas a partir da justiça. Negando a dicotomia classe x política cultural, Adriana conclui a fala com o alerta à resistência através da identificação das diferenças e finaliza com a apresentação do clipe “Juventude da Baixada” de Dudu de Morro Agudo (RJ), que estava presente no evento.
Em um discurso cantado, a segunda fala da noite ficou por conta de Janja Araújo, também conhecida por Mestre Janja. A historiadora e capoeirista, professora do Bacharelado de Estudos de Gênero e Diversidade (NEIM/UFBA), alternou sua fala com cantos da capoeira. Ao trazer observações de como a prática da capoeira foi mudando de classificação na sociedade, tendo que ser enquadrado como esporte para poder ser efetivamente reconhecido como uma cultura, sem o estigma da marginalidade. Ativa nas discussões de educação, raça e gênero, a pesquisadora encerrou sua fala na abertura do ENECULT relembrando o assassinato da deputada Marielle Franco e enaltecendo a luta, entoando os versos: mataram mais uma preta/mataram uma companheira/sua história, meu colega, sempre foi de muito risco/pra quem luta todo dia contra o machismo e o racismo/mas é na luta que aprendemos: vai a flor, fica a semente/enquanto a gente estiver juntas, Marielle estará presente.
Fechando a mesa com chave de ouro, a performer Musa Michelle Mattiuzzi apresenta um texto retirado de seu diário que traz reflexões sobre o processo criativo, a forma de existir no espaço a partir dos lugares de raça, gênero e classe, expressando seu trabalho como arte combativa à branquitude cis-hetero-patriarcal, denunciante do pensamento hegemônico e do racismo institucional neste espaço da construção do conhecimento. A apresentação em vídeo da intervenção “Experimentando o Vermelho em Dilúvio” fechou o primeiro ciclo da mesa, causando um misto de incômodo, admiração e respeito por este trabalho, premiado pelo Canal Brasil no X Janela Internacional de Cinema do Recife (2017).
DEBATE
O segundo momento foi aberto com inscrições da plateia, que deu continuidade a provocação de Matiuzza sobre a universidade, compreendido como espaço de “plantation” da branquitude. Em uma discussão acalorada com a mediadora da mesa, entre aplausos e gritos, o auditório inteiro se manteve atento sobre o debate das políticas afirmativas e a percepção de mudança do perfil social e racial das universidades públicas. O tema “Culturas e resistências: Artivismos, Identidades e Políticas” passou, então, a ser explorado pela perspectiva do lugar da academia e da produção de conhecimento, como lugar institucionalizado, sobre essas resistências artísticas e culturais.
Para Janja Araújo, o conhecimento é um bem público, e o espaço da Universidade está sendo disputado e ocupado. Assim também defende Adriana Facina, afirmando a necessidade da apropriação sobre esse espaço e de suas regras, para momentos de enfrentamento à lógica burguesa, mas também compreendendo a existência e a defesa do espaço de autonomia sobre as narrativas, existências e corpos das mulheres negras e periférica fora do espectro universidade como o local do racismo institucional.
Nada mais interessante que trazer à tona essa discussão num ambiente como o Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, como um fator desestabilizante, reflexivo e reconstrutor das perspectivas sobre cultura, política e produção do conhecimento. A programação dos próximos dias também promete importantes e inteligentes discussões.
A abertura do XIV ENECULT contou com o apoio do NAPE - Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com Necessidades Educacionais Especiais, que fez a interpretação em LIBRAS. A TV UFBA transmitiu ao vivo o evento na sua página do YouTube. Você pode conferir a gravação aqui:

