Desafios de uma gestão cultural moderna e independente: planejamento e formação

Foto Daniel Figliuolo

Texto Silvania Cerqueira

Na tarde de ontem (13), as atividades do XIII Enecult continuaram no auditório do Pavilhão de aulas Glauber Rocha (Paf III) da UFBA, Campus de Ondina, com a apresentação do relato de experiência Gestão de Grupos Culturais: modelos e desafios, com coordenação de Leonardo Costa (UFBA). A mesa contou com a presença de Rômulo Avelar (Gestor e presidente da Fundação Cultural de Belo Horizonte), Marcio Meirelles (Teatro Vila Velha) e João Jorge Rodrigues (Olodum).

Rômulo Avelar explicou que para gerir grupos e coletivos é importante primeiramente investir na formação dos seus gestores, profissionalizando-os. Ele destacou também a relevância do planejamento, enfatizando que uma boa gestão parte de um bom plano estratégico - pensar onde queremos chegar no processo. O ministrante abordou ainda o desafio de promover um trabalho coletivo por meio da fidelização de parceiros e de públicos, citando exemplos de sua passagem pelo Grupo Galpão e outras experiências em iniciativas culturais.

Marcio Meirelles, ao relatar a sua experiência como diretor do Bando de Teatro Olodum, afirmou que gerir coletivos é lidar com diferentes naturezas, administrando as trocas e percebendo a importância da comunhão. Para ele o Bando trouxe para a cena baiana uma poética afro-brasileira diferente dos padrões midiáticos consolidados até então. Além disso, Márcio focou na importância do público, das pessoas, para o financiamento dos espetáculos. A importância de pensar na cultura de um consumo cultural que precisa ser valorado. A partir disso destacou o modelo de gerir grupos com recursos adquiridos a partir da bilheteria das suas próprias produções artísticas, para que um espetáculo possa, por exemplo, financiar uma produção futura.

Marcio citou ainda a polêmica sobre a meia-entrada para negros estabelecida no primeiro ano do Cabaré da Rrrrraça, dita por uns como estratégia de marketing mas que no fundo serviu para ampliar o debate do consumo cultural:

A importância foi o debate gerado a partir da decisão de cobrar meia-entrada para negros. Propus ao grupo que fizéssemos isso porque soube que apenas 1% da plateia do teatro baiano era ocupada por negros. Era uma forma de incentivar os negros a irem ao teatro, era uma forma de provocar o público a se assumir negro porque era o quanto bastava para pagar a meia-entrada, estava no âmbito das discussões sobre políticas afirmativas. E realmente, a partir daí a plateia do espetáculo era pelo menos 60% de negros em média. E essa plateia continuou fidelizada ao grupo e ao vila. Promovemos debates sobre a questão.

Por fim, João Jorge Rodrigues argumentou que devemos colocar as ferramentas que temos ao nosso dispor na atualidade, a exemplo das tecnologias da informação e comunicação, a serviço de um resgate de nossas matrizes culturais, de modo que a novidade e a memória sejam aliadas. E defendeu que uma boa gestão cultural tem que ter um toque de rebeldia. João Jorge narrou também fatos da trajetória do Grupo Cultural Olodum, inclusive o momento que foi criado o Bando de Teatro Olodum com o Vila Velha.