Em segundo dia de simpósio sobre Capoeira, mestres traçam panorama do cenário da prática no país

por Luana Gama

O segundo dia destinado aos simpósios do XIV ENECULT fechou com chave de ouro a programação da manhã desta sexta-feira (10). No auditório do PAF V do Campus da UFBA em Ondina, nomes de peso da capoeira brasileira estiveram à frente da mesa “Capoeira: Salvaguarda e sustentabilidade”. Os mestres Cobra Mansa, Zé Doró, Luís Renato e as mestras Nani e Jô trouxeram a tona suas perspectivas sobre o cenário atual da capoeira, com o intuito de debater como a prática poderá se sustentar sem distanciar-se das tradições. O evento foi mediado por Ricardo Khouri, tendo mestra Patrícia, mestre Soldado, contramestra Lilu e contramestre Sem Terra como debatedores. Está edição do ENECULT é a primeira em vez em que um tema relacionado a capoeira foi abordado no evento.

O que é sustentabilidade para a capoeira? com este questionamento o mestre Cobra Mansa, um dos fundadores da FICA (Fundação Internacional de Capoeira Angola) abriu a mesa de debates. Ele aponta que a capoeira sempre teve condições de se manter independente, e que esse fato se deu ao esforço dos capoeiristas em manter as tradições e levar a prática para diversos países, nem necessitar da ajuda de ONGs. Mestre Cobra argumenta que deveria haver uma melhor comunicação entre os membros do movimento da capoeira para se ter um consenso de quais medidas são realmente necessárias para resguardar esta prática cultural. Mestre Cobra Mansa diz que em dez anos de luta frente ao movimento de salvaguarda da capoeira, nada mudou. “Pouca coisa mudou desde que a capoeira virou patrimônio”, pondera. Ele encerrou sua fala ressaltando a importância das pessoas que estão à frente dos movimentos da capoeira em manter as tradições e origens desta expressão cultural.

Em seguida, mestra Nani, neta do grande mestre de Capoeira Angola, João Pequeno, criticou o fato da necessidade em criar novos golpes para a arte marcial como forma de sustento, não sendo necessária, já que dentro da prática existe a liberdade em poder adaptar-se sem desprender-se das raízes históricas. Por ter uma formação tradicional devido ao avô, ela teme que as verdadeiras formas de ensinar a capoeira sejam esquecidas por conta da imposição em profissionalizar a prática, e que os saberes originais sejam substituídos pela teoria acadêmica aplicada em escolas. Ela acha importante que principalmente as crianças que queiram aprender sejam ensinadas da forma tradicional.  Outro ponto levantado durante a sua fala foi a esportivização da Capoeira, afinal, como colocar regras e definir quem estar apto em praticar uma manifestação advinda das senzalas, fruto de uma resistência por meio de escravos que buscavam uma vida digna? “Como diz meu mestre ‘a capoeira tem que estar livre’ quando é algo que a prende, não é importante.” argumenta.

Capoeira não é esporte!

Mestre Zé Doró partilha da mesma opinião da mestra Nani, ele não apoia a prática da capoeira como esporte, ressaltando que a figura do mestre que detém o saber popular da manifestação não pode ser esquecida, uma expressão cultural não pode ser esportivizada.  “Eu não tenho nada contra o esporte, o que eu tenho medo é da ideia de que quem vai fazer isto ou aquilo na capoeira seja apenas quem tiver um nível acadêmico ou formação em Educação Física”, conta. Doró aponta que a saída para os capoeiristas se manterem economicamente, seria a cobrança dos serviços praticados, como taxas de batizados (momento honroso para os capoeiristas), cursos e oficinas de instrumentos e música. Ele finaliza dizendo que tenta passar todo o conhecimento da capoeira tradicional aos seus alunos, seguindo rodas, cantos e todos os rituais de antigamente. “Capoeira não é só dar aula e receber o dinheiro. Temos que passar todo o amor e a paixão a eles.”

Puxando para um viés sociológico, mestre Luís Renato, que também é cientista social, trouxe a figura do capoeirista na sociedade. Trazendo algumas fotos que mostram a trajetória da capoeira, ele cita uma em especial e fala sobre apropriação cultural. A imagem traz um negro sendo ovacionado após vencer uma roda de capoeira contra um estrangeiro no século passado, onde jovens brancos celebram uma brasilidade, construída através de uma exclusão, uma brasilidade seletiva. Ele diz que é necessário haver um maior entendimento quanto a expansão comercial da capoeira e da relação com as religiões evangélicas para se entender a complexidade dos temas sem rotular nenhuma prática. Luís Renato traz também em imagens como se deu o surgimento da capoeira como esporte. E uma época em que esporte e cultura não poderiam ser a mesma coisa, a capoeira foi incluída nesta categoria como forma de esconder os elementos africanos que a compõem. Mestre Luís Renato foi um dos primeiros a abordar e defender uma tese de mestrado sobre tema relacionado a capoeira, o que abriu portas para o desenvolvimento de outras pesquisas posteriormente.

Mulheres capoeiras e barreiras machistas

Por fim, mestra Jô inicia a sua fala citando as dificuldades em permanecer na área principalmente por ser mulher, muitas mestras desistiram de seguir por conta das barreiras machistas e acha importante o incentivo que os mestre devem direcionar às mulheres. Jô cita a forte inclusão social que a capoeira proporciona através de projetos, mas que há falhas de inclusão, em que pessoas privilegiadas são beneficiados. Ela aponta alguns fatos que podem dar mais visibilidade à prática cultural, como a realização de congressos, simpósios, mais participação dos capoeiristas nos eventos e valorização dos mestres antigos. Finalizando, ela enfatiza a importância da mulher ocupar os espaços, principalmente as capoeiras. A mesa foi justa em equilibrar o debate, trazendo convidadas mulheres para expor suas opiniões em um meio que antigamente era apenas composto majoritariamente por homens.

Ao final da fala de cada um dos mestres, os debatedores puderam expressar suas opiniões em relação aos pontos levantados, e muitos foram os elogios, críticas e questionamentos para os convidados. Mestra Patrícia disse que a mesa foi genial em traçar de formas variadas uma manifestação subjetiva e complexa que é a capoeira. Ela ressalta que deve haver um consenso entre a necessidade de inovar na capoeira e na permanência da sua tradição. Mestre Soldado levantou a questão no debate de como garantir a dinâmica da capoeira enquanto cultura, e ao mesmo tempo, atender às demandas da contemporaneidade como a esportivização. Logo após, mestra Lilu cantou uma música típica das rodas de capoeira, o que contagiou todos os ouvintes presentes. Mestra Lilu citou alguns ofícios como ama de leite, curandeira, marisqueira, rendeiras, pescadores, vaqueiros, feirantes e artesãos e outras profissões que estão ligadas a hábitos e costumes de certas culturas e que não são valorizados, assim como a capoeira. Ela diz que é necessário propor soluções sustentáveis para os capoeiristas continuarem o seu ofício, citando o fato da dificuldade em transitar nos saberes populares e acadêmicos da capoeira.