Foto de Marco Antônio Correia
Texto de Maryanna Nascimento
Cerca de 350 pessoas lotaram o Teatro Vila Velha nesta terça-feira, 15, para a abertura do XII Enecult – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. A mesa Caminhos e Descaminhos da Democracia no Brasil, que iniciou as atividades do evento, teve a participação de Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro; Maria Rita Kehl, pesquisadora, ensaísta e jornalista; e Jessé Souza, professor de Ciência Política e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Na discussão aberta ao público, o principal tema foi em torno da atual conjuntura política do país.
Para o professor Roberto Severino (UFBA), que coordena o XII Enecult ao lado da pesquisadora Renata Rocha (UFBA), apesar da programação apontar para pesquisas em cultura, a mesa sinalizou a missão da universidade de estar atenta aos contextos atuais. “Estamos discutindo e nos posicionando politicamente”, completou. Para Renata, o evento é uma oportunidade de “enfatizar o papel da cultura como recurso crítico para a sociedade”.
Em sua fala, Marcelo Freixo fez críticas à esquerda, apontando limitações e desafios. “A esquerda não é detentora das dores do mundo, sequer sabemos delas. Nós precisamos parar para ouvir. Mais do que resistir, nós precisamos reexistir”. Para o deputado, a democracia não pode ser pensada apenas através do calendário eleitoral. “É preciso ouvir, estar nos lugares, saber o que a juventude está pensando e vivendo na pele. É preciso entender o que acontece em cada lugar”, enfatizou.
Ao relembrar as eleições para prefeito do Rio de Janeiro, que concorreu neste ano, Freixo considerou que vitórias importantes aconteceram durante a campanha. “Nós ficamos um ano e meio discutindo a cidade, debatendo em cada espaço. Nós não perdemos, alguma coisa continua acontecendo”. Para ele, ter forte identidade com os direitos humanos foi um dos motivos que não o fez vencer nas urnas. “Se, para ganhar, eu tiver que deixar de ser a favor dos direitos humanos, não disputo mais eleição. É preciso ressignificar o papel pedagógico da luta política e reafirmar a luta pelos direitos humanos”.
Para Maria Rita Kehl, a luta política tem dois trabalhos: o de continuar a batalha por bons candidatos e o trabalho de base. “É preciso ter conversa e fazer um tipo de formação política. Nós vamos ter que ir para rua muitas vezes, mas não sei se isso garante alguma coisa contra uma virada mais à direita ainda”. Em consonância, Freixo enfatiza que “nenhuma lógica de governabilidade pode substituir um trabalho de base”.
Comissão da Verdade
A Comissão Nacional da Verdade também foi um dos temas da mesa. Maria Rita Kehl falou sobre anistia, ditadura e a sua experiência na comissão, que investigou violações de Direitos Humanos entre 1946 e 1988. “O Brasil foi o único país da América Latina que, ao encerrar a ditadura, anistiou da mesma forma militantes que tentaram derrubar um poder despótico e agentes de estado que torturaram e mataram pessoas em sua custódia. O Brasil anistiou nos dois lados e foi o último país a constituir a Comissão da Verdade”.
Culturalismo e corrupção
Encerrando o debate de mais de duas horas, Jessé Souza problematizou sobre a relação da esquerda com a corrupção. “A esquerda sofre com esse debate. Acho que ela é dominada por um discurso moralista e conservador de direita”, afirmou.
Para ele, é necessário se desvincular a construção da ideia de que o brasileiro é corrupto devido à herança cultural. “A transmissão cultural não se dá pelo sangue. A corrupção é congênita ao capitalismo e, talvez, a qualquer forma a sociedade humana e a melhor forma de combatê-la é a luta contra a pobreza”, concluiu.
A mesa foi mediada pela pesquisadora Fernanda Argolo (UFBA).
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