Por Giovanna Hemerly
Literatura negra, reexistência, ancestralidade e amor sapatônico. Foi com base nos estudos e na poesia da autora e pesquisadora negra lésbica, Tatiana Nascimento, que as pesquisadoras do NUCUS - Núcleo de pesquisa em Cultura e Sexualidade da UFBA, Mayana Soares e Camila Carmo, realizaram no segundo dia do XV Enecult o minicurso “Cuíerlombismo literário: cultura, literatura e afrodiasporicidade sapatão”. O evento, que aconteceu nesta quinta-feira (01), no espaço do Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA, discutiu a relação entre as narrativas literárias diaspóricas e a trajetórias de mulheres negras lésbicas na literatura nacional contemporânea.
Segundo Mayana Soares, o cuíerlombismo proposto por Tatiana Nascimento, que tem inspiração nas ideias do quilombismo do escritor e ativista Abdias Nascimento, associadas à elementos da Teoria Queer, tem demonstrado “como as narrativas literárias nos atravessam em nossas vivências e como esse aspecto tem feito parte de uma resistência preta sapatônica”. A pesquisadora Camila Carmo destacou que o movimento surgiu como resposta a urgência de se abordar os conflitos étnicos-raciais nas questões de gênero apresentadas na literatura. “Quando Tatiana fala de cuíerlombismo, ela está na verdade rasurando e reescrevendo o conceito da teoria queer, já que ele por si só não é o suficiente para falar sobre nós, porque somos também atravessadas pelo racismo”. Deste modo, assim como o quilombismo, o cuíerlombismo busca o enfrentamento ao modelo opressor através da liberdade criativa da população afrodiaspórica, permitindo-se nesse processo vivenciar experiências que vêm sendo negadas historicamente pelo colonialismo cultural.
De acordo com Camila Carmo, a partir da recontação dos itans (contos que trazem a cosmovisão iorubá) muitos descendentes da diáspora têm suas primeiras experiências da resistência cultural negra, pois apesar da repressão imposta pela cultura hegemônica sobre essa tradição que subsiste por meio das religiões de matriz africana, a transmissão dessas narrativas permite resgatar e perpetuar a herança ancestral afrodiaspórica inicialmente negada. Além disso, a pesquisadora lembra que os elementos que compõe os itans constituem hoje manifestações culturais importantes de resistência da população negra, a exemplo dos SLAMs, batalhas de poesias que abordam as vivências das periferias. “A gente pode pensar isso, por exemplo, como os SLAMs estão aí justamente como essa herança de contar a história, de narrar através da oralidade sobre nós mesmas”, afirmou Camila.
No entanto, as pesquisadoras ressaltam que até mesmo essas narrativas sobre a cosmovisão iorubá que subsistem são atravessadas por aspectos da cultura hegemônica, passeando pelas contradições intrínsecas ao processo de colonização vividos pelos ancestrais e repassadas às demais gerações. “Por que majoritariamente são os itans hétero-cis-normativos que circulam entre nós?”, questionou Mayana Soares, enquanto lembrava aos ouvintes que os contos que tratam da rivalidade entre as orixás femininas Oxum e Obá pelo amor do orixá masculino Xangô são muito mais difundidos do que os que retratam a paixão de Oxum pela orixá Iansã, por exemplo. Desta forma, Mayana aponta para a necessidade de ressignificação desses aspectos para construir novas epistemes a partir dessas experiências.
“E como deitar sobre as contradições e lastreá-las?”, perguntou Camila, enquanto dialogava com o público sobre a possibilidade de apropriar e ressignificar o contraditório. A exemplo, a pesquisadora citou a reivindicação do direito ao matrimônio pela comunidade LGBTQI+. “O casamento é uma instituição voltada para a família que foi constituída por anos a partir de uma série de violências com os nossos corpos, e aí passamos a reivindicar este lugar de direito. Não estou questionando se é legítimo ou não, mas estou colocando que isso também é passear por uma contradição para elaborá-la”, salientou.
Para Mayana Soares, discutir essa apropriação e ressignificação remete, inclusive, a própria luta pela reexistência das mulheres negras lésbicas na literatura brasileira, à construção das políticas de enfrentamento feita por elas nesse e em outros espaços em meio à busca pela própria visibilidade. Contudo, ela enfatiza que as obras literárias negras lésbicas devem produzir suas próprias narrativas para além de uma questão de apenas resistência e denúncia, abarcando também questões relacionadas ao afeto e autocuidado. “Nós queremos falar dos nossos processos de amor, de gozo, de afeto e de vivências que nos toque positivamente também, que nos atravesse pelo amor e não apenas pela dor”, afirmou a pesquisadora.
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