por Paula Holanda
O segundo dia do simpósio “Políticas culturais em tempo de incertezas”, coordenado por Albino Rubim (UFBA), teve seus desdobramentos durante a manhã dessa sexta-feira (10) e deu continuidade às reflexões debatidas e propostas durante o primeiro (9). Ontem, a primeira parte do simpósio, “Políticas culturais nacionais em tempos de incertezas”, apresentado por Fabiano Piuba (Fórum dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura) e Isaura Botelho (SESC-SP), apresentou análises frente às conjunturas autoritaristas e os perigos de paralisação das políticas culturais no Brasil. Já na segunda parte, “Políticas culturais estaduais em tempos de incertezas”, apresentada por Alexandre Barbalho (UECE), Lia Calabre (FCRB) e Silvana Meirelles (Secult-PE), apesar de o debate ter continuado sob uma perspectiva nacional de um modo geral, deu, de modo particular, um novo foco às perspectivas estaduais em momentos bastante pontuais das apresentações, com atenção para Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro.
Como esperado, foi discutida a importância que existe por trás das políticas culturais para o desenvolvimento da nação e dos estados brasileiros, tensionando-se a fragilidade do campo cultural e a necessidade de, na atual conjuntura, se revisitar conceitos, repensar modelos e reestruturar as metodologias dos estudos e as práticas das políticas culturais no Brasil, a fim de buscar novas alternativas em reação às gestões conservadoras. Lia Calabre foi a primeira a se apresentar, retomando a discussão proposta no dia anterior do simpósio e ponderando o cenário pós-golpe de 2016. Em sua apresentação, Silvana Meirelles assinalou, muito sabiamente, que estávamos vivendo uma ilusão conjunta de que o país evoluiu no campo da cultura. “Durante o golpe fomos muito tímidos. As crises políticas não devem e nem podem paralisar a cultura e as políticas culturais, mas promover novas reflexões sobre elas”, afirma. “Nos últimos anos, muitas coisas afloraram, inclusive uma onda de conservadorismo. Isso não pode ser ignorado nos estudos em políticas culturais”.
Em sua fala, Alexandre Barbalho reforçou o que Silvana defendeu, dizendo que “o momento de crise é sempre o momento em que o novo deve emergir”. Alexandre considerou também que percebe um maior engajamento de produtores e gestores culturais brasileiros em causas políticas a partir da última década, principalmente durante e após a gestão de Gilberto Gil como ministro da cultura (2003-2008). “Os artistas, de um modo geral, sempre se posicionaram sobre essas causas, mas esse engajamento por parte dos profissionais que estão nos bastidores me parece novo”, argumenta. “Palavras como ‘cidadania’, ‘democratização’ ou ‘participação’ passaram a ser bastante recorrentes em seus discursos”.
Alexandre, Lia e Silvana tiveram todos falas sucintas, porém extremamente relevantes e bem articuladas. Os convidados destacaram a necessidade de manter ou propor novas políticas culturais durante a gestão Temer, e relembraram da reação das classes artísticas e culturais em oposição à extinção do Ministério da Cultura, logo após a posse de Michel Temer como presidente interino. Novamente foi posta em pauta a vulnerabilidade das políticas culturais, que em geral perdem força nas mudanças de gestões ou até mesmo durante as próprias gestões. Assim, assinalou-se também que as eleições de 2018 e as novas gestões nos forçam a pensar em estratégias de permanência das políticas culturais já estabelecidas, além de propor o diálogo entre cultura e outras esferas, como indaga Lia: “se acreditamos que a cultura é transversal, por que não conseguimos avançar na articulação dela com outros campos?”.
Fotos de Dan Figliuolo
