Oficina discute expressões de gênero a partir de relato de experiência

por Raysa Pires

O primeiro dia de palestras no XIV ENECULT começou desconstruído. Ministrando a oficina “Corpos, identidades e expressões de gênero e performance: desmontando a heterocismasculinidade branca”, Caio Jade, homem trans, branco e sulista, compartilhou um pouco da sua vivência na academia e fora dela, além de propor reflexões acerca do corpo, sociedade e espaço através de uma dinâmica incrível com os participantes.

Caio Jade é um homem transexual e, com propriedade de vida e teórica, tenta, através do seu trabalho, propor reflexões sobre as sexualidades fora de seus estereótipos, e a criação de masculinidades que não sejam hegemônicas. Com pesquisas na área de vivências e saberes marginalizados e apagados pela civilização colonialista, seus objetos de estudo vão dos “banheirões” até a pornografia.

Ele começou a oficina falando sobre a sua vivência como homem trans no espaço da universidade e sobre a dificuldade de socialização desde os tempos de escola. Para ele, é preciso refletir a cada instante sobre a posição que o corpo ocupa e os privilégios e privações dos quais são submetidos e cerceados pela sociedade a depender de como são apresentados a ela. “A minha transgeneridade não pode falar nos espaços acadêmicos, mas a minha branquitude sim”, destacou.

O filósofo não acredita na construção que a sociedade dá aos corpos e seus padrões impostos. Ele afirma com afinco que é desorientado sexualmente, e que a noção de corporalidade nunca fez sentido. Caio enfatizou que corpos dos espaços de poder sempre enxergam os demais como outros e a si próprio como referenciais, sendo o outro o nomeado como “estranho” e “peculiar”.

Outro tema tratado por Caio foi a importância da luta-causa e, também, sem esquecer do bem-estar da mente nesse processo. Ele lembrou da importância de encontrar um caminho onde seja necessário encarar de frente a ferida, mas sem se machucar ainda mais. Assim como as reflexões que aconteceram na abertura do congresso (inserir hiperlink para o texto), Caio reforçou que o sistema precisa ser desmontado e refeito, mas sem o adoecimento de quem está nele.

Foto: Dan Figliuolo

Reflexões na prática

fotos de Dan Figliuolo

Na parte prática da palestra, o performer convidou os participantes para se levantarem e andarem - ou ocuparem – o espaço. A cada nova instrução, era necessária uma maior aproximação entre as pessoas que estavam ali e nunca tinham trocado qualquer contato. Inicialmente, o contato deveria ser feito com os olhos, tentando olhar profundamente para quem cruzasse seu caminho, ainda que uma pessoa desconhecida.

Depois, apertos de mãos, abraços, abraços demorados, uns encontrando os outros, até leves e respeitosos tapinhas em suas partes traseiras como forma de cumprimento, questionando: “e se assim fosse o normal?”. Nesse primeiro momento da dinâmica, Caio propôs uma reflexão sobre a individualidade e o coletivo, sobre como os corpos estão cada vez mais assépticos, e recusam a se sujar uns dos outros e o quanto disso é influenciado pela criação.

Partindo para um momento de autoanálise, ainda com todos de pé, os participantes foram convidados a fechar seus olhos e enxergar o que está dentro, pensar sobre seus anseios, angústias, vontades e, principalmente, seus sonhos, motivados pela reflexão “O que eu ando sonhando quando estou dormindo e o que eu ando sonhando quando estou acordado? Como a gente cria espaço para um corpo que sonha? Como nosso sonho é cura?”.

Para fechar a oficina, Caio pediu para que os participantes escrevessem uma carta de amor endereçadas a si mesmos, perdoando seus defeitos e exaltando suas qualidades, compreendendo e sendo pacientes com o corpo, o que ele representa, o que ele se tornou e o que busca tornar, sendo livre para ser, existir, ocupar e lutar.