por Raysa Pires
O último dia (10) do XIV ENECULT foi marcado pela segunda rodada de simpósios, dando continuidade aos debates que aconteceram ontem. O auditório do PAF I foi espaço para o simpósio “Mulher e Cultura”, mediado por Linda Rubim (CULT/UFBA), com participação de mulheres de diferentes áreas, Florentina Souza (UFBA), Nancy Vieira (UFBA), Ceci Alves (UFBA) e a vereadora Marta Rodrigues (PT). A mesa teve como proposta discutir a posição da mulher nos diversos setores da sociedade e compartilhar experiências de suas vivências.
A mesa apresentou ao público uma visão geral de qual espaço a mulher ocupa no ambiente da arte e cultura, mostrando as dificuldades e também os avanços. Entre as convidadas da mesa havia mulheres do audiovisual, da literatura e, para representar a mulher na política, a vereadora Marta Rodrigues, já que a deputada Neusa Cadore não pode comparecer por questões de agenda.
Para iniciar o debate, a pesquisadora e coordenadora do grupo CULT, Linda Rubim, fala sobre a importância de se discutir a mulher e a cultura no atual contexto da sociedade. Declara que estamos vivendo um tempo extremamente sombrio, especialmente para as mulheres, com o avanço da direita e o impeachment sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff, que em quase 70 anos de democracia (com um intervalo para o período da ditadura) foi a única mulher a ocupar o cargo mais alto do Brasil. Linda faz o adendo de que o machismo é um problema crônico da sociedade e que assola todas as culturas, até mesmo em lugares ditos progressistas. Para ela, mudar o governo e suas propostas não são o bastante, é necessário que os valores da sociedade também sejam revistos.
Auto-estima e invisibilização
As falas da mesa foram organizadas por ordem alfabética, portanto, a convidada responsável por abrir o debate foi a professora e cineasta Ceci Alves. Trazendo referências da sua área de trabalho, ela começa dizendo que é difícil ser mulher, negra e nordestina em um setor tão machista como o cinema. Apesar de ser uma arte, lugar em que temas como direitos humanos e minorias são abordados de forma abundante, ainda é um local em que os homens possuem maior voz e ocupam as posições de liderança e destaque, como direção de cinema e fotografia.
Ceci traz uma experiência vivida em um evento de cinema no Rio de Janeiro para mostrar a invisibilidade sofrida dentro da área: conversando com um amigo sobre uma mesa de debates que propunha discutir a presença das mulheres no audiovisual, mas composta apenas por mulheres brancas, ela chama a atenção de que, além da mesa, pasmem, ser mediada por um homem, não havia representantes negras, ao que seu amigo pergunta “será que é porque não existem mulheres negras como diretoras?”.
A cineasta traz então uma reflexão importantíssima para os estudos feministas e que iria vir a ser ponto central da palestra: a autoestima da mulher em ambientes prioritariamente ocupados por homens. “Temos que ocupar os espaços sem pensar que isso é um favor, esse silenciamento e invisibilização que sofremos é péssimo, porque você começa a pensar que não deveria estar ali”, diz. Compartilhando com o sentimento da mesa e da plateia, afirma que foi demorado para a mulher conseguir ocupar uma posição de poder e, quando isso finalmente acontece, são questionadas do início ao fim. Isso faz com que as próprias mulheres comecem a duvidar da potência e qualidade do seu trabalho, destruindo ainda mais uma autoestima que, graças a sociedade, nunca foi alta.
A insubimissão como resistência
Passando a voz para Florentina Souza, a professora de literatura brasileira e pesquisadora de literatura afro-brasileira traz em sua fala uma visão histórica da insubmissão da mulher. Começa contextualizando que seu papel, desde o início da família como uma instituição, foi atender às necessidades do marido, dos filhos e da casa. Fala que a primeira vez que a mulher ocupa um espaço de poder fora desse ambiente é na área de educação, como professoras, porém, mais uma vez, sendo a responsável por cuidar de crianças e a ensinar bons modos. Essa herança explica porque elas são maioria apenas em cargos que oferecem cuidado ou ligados ao lar, como enfermagem, educação e costura. Apesar de terem sido colocadas em um papel de subservientes, a mulher sempre teve vontade e audácia para tentar sair dele.
Em concordância com a fala de Florentina e Ceci, a vereadora Marta Rodrigues e a professora Nancy Vieira relembram as mulheres que foram destaques em lutas importantes na história e reafirmam a importância em ocupar posições de poder. A vereadora diz que é necessário ter mais mulheres na bancada política, porque elas podem ajudar a barrar projetos que limitam a discussão de temas relevantes como o Escola Sem Partido (PL 7180/14), que visa dispor sobre a conduta dos professores em sala de aula, cerceando temas considerados “polêmicos” (para quem?) dos ambientes escolares.
Terminando o primeiro ciclo de discussões e abrindo espaço para a plateia composta inteiramente por mulheres, o assunto voltou para a questão da invisibilização da mulher nos ambientes de trabalho. Usando como exemplo a área do audiovisual, setor em que a maioria presente atuava, foi levantada a questão de que, por muito tempo, as mulheres ficaram restritas a ser assistentes, muitas vezes, inclusive, tendo maior atuação nas decisões, porém sem reconhecimento ou créditos. A conversa se estendeu sobre a necessidade da mulher em se mostrar presente e não ter medo de se impor.
No último dia de reflexões do XIV Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, além da certeza de que o mundo nunca mais voltará para o domínio exclusivo dos homens, fica claro que ser mulher é f**, em todos os sentidos e possibilidades que a palavra permite.
Fotos de Dan Figliuolo


