Simpósio sobre experiências trans e negras na arte abre espaço de acolhimento no XIV ENECULT

por Raysa Pires

A manhã do segundo dia (09/08/18) do XIV ENECULT foi destinado aos simpósios. Para falar sobre experiências de transexualidade com um recorte de raça, xs convidadxs da mesa foram xs artistas Elton Panamby (MA), Odayara Mello (RJ) e Kuma França (BA), mediados pelo pesquisador Matheus Santos, todxs à frente do simpósio “Experiências Trans e Negras na Arte Contemporânea”. Com depoimentos sobre suas histórias de vida, descobertas, preconceitos e ativismo, o encontro teve um tom de desabafo, militância e força.

Quem abriu a mesa foi x poeta Kuma França. Recitando uma poesia de autoria própria, Kuma já dá a entender sobre o que será sua fala ao declamar versos de conscientização e como é ser negro/negra nos dias de hoje. X poeta faz parte do Coletivo Zeferinas, um grupo formado por oito mulheres artistas do bairro de Cajazeiras. Negrx, periféricx, lésbica, mulher, homem, trans, Kuma faz questão de frisar que não quer ser enquadradx como homem ou mulher, que gosta de transitar entre os dois espaços, já que traz consigo construções de ambos.

Iniciando o debate, Kuma aborda assuntos sobre os papéis de gênero na sociedade e suas imposições: “estamos sempre oscilando, mas na sexualidade só pode ser uma coisa”. Relembra passagens da infância, como quando o pai repreendeu o irmão que chorava pela morte de um tio próximo, ou quando se forçava a ter uma letra bonita, afinal, como é possível uma menina ter a letra mais feia que o irmão homem? X poeta também traz histórias das salas de aula, onde atua como professorx para crianças e adolescentes entre os 10 e 17 anos. Conta que era comum que os pais proibissem assuntos sobre transexualidade e imposições de gênero aos seus filhos.

Kuma é incisivx ao falar que o grande problema da sociedade está na falta de diálogo dos pais com seus filhos e na reprodução de padrões de comportamento. Elx acredita que o problema é estrutural e que a mudança só será possível a partir do momento que os pais e educadores começarem a ensinar as crianças sobre diversidades existentes no mundo, assim não irão crescer e reproduzir os estereótipos. Para elx, a resposta está na educação.

A segunda fala da manhã ficou por conta de Odayara Mello. Artista autônoma, vê em sua arte uma forma de transmitir ao mundo suas reflexões a respeito da vida, padrões, sexualidade, mente e devaneios. Suas peças de arte misturam a delicadeza do papel e a força da militância, sempre trazendo também referências do candomblé, uma questão muito forte em sua história. Seu depoimento no simpósio trouxe um pouco da sua descoberta como trans e do conservadorismo do ser humano.

A militância e os afetos – se uma cair, a outra levanta

Finalizando a primeira parte do simpósio, x performer e pesquisadorx Elton Panamby já abre a conversa se identificando como trans não-binário, o que quer dizer que não quer se encaixar e definir como um homem ou como uma mulher. Faz questão de deixar isso em evidência no seu estilo, com traços e roupas femininas em conjunto com o cabelo curto e barba. Elton conta um pouco da sua trajetória como artista destacando episódios de preconceito sofrido na arte por ser negrx e o preconceito sofrido na academia devido ao seu visual binário.

O trabalho dx performer é baseado nos limites corporais e no sangue, com apresentações que deixam marcas eternas em seu corpo. Desestimuladx com o meio artístico e a falta de representatividade e entendimento do que é ser negro, Elton conta sobre um momento de sua vida em que perdeu as esperanças no mundo e quase desistiu da carreira. Foi na Suécia, onde foi convidadx a participar da apresentação de um artista que admirava muito, que viu a face de mais uma pessoa que reproduz padrões, um alguém racista e machista. Em um jantar, o artista em questão usou um termo para dar a entender que o modo como Elton falava era um “francês de neguinho”, adjetivo que é utilizado para se referir a imigrantes africanos que não dominam a língua.

Logo após o episódio, x performer retornou ao país e descobriu estar grávida do seu primeiro filho, que hoje tem um ano, Txai, uma palavra indígena que quer dizer “meu companheiro, metade de mim”. Em um depoimento bastante pessoal, elx compartilha com a plateia o preconceito que sofreu de alguns médicos e enfermeiros por ter um estilo binário e do medo que tinha de o próprio filho não gostar de sua barba, pensamento que logo após os primeiros contatos foi desfeito.

Abrindo espaço para a plateia falar, o clima se transforma em uma grande troca de experiências entre ouvintes e palestrantes. Assim como já foi debatido em outras sessões do XIV ENECULT, a academia e a militância adoecem e cansam. Era um consenso entre todos os presentes que, por muitas vezes, é doloroso e cansativo bater de frente com uma sociedade tão engessada. Outras críticas também foram feitas, como a ausência de diversidade na academia, o que acarreta em situações de preconceito direta e indiretamente.

Hoje, o auditório do PAF V foi espaço para refletir e se fortalecer, entender que não será em alguns dias que a sociedade vai mudar, e que o processo não é fácil, mas que existem muitas pessoas lutando por isso. Se uma cair, a outra levanta.

Fotos de Dan Figliuolo