Conversatório Cultural

O Conversatório Cultural é um espaço virtual, de iniciativa do CULT e do Observatório de Políticas e Gestão Culturais (OBS-CULT), destinado a publicizar reflexões acerca de temas inquietantes presentes e inspirados na conjuntura político-cultural brasileira e internacional. O Conservatório Cultural acolhe textos autorais e plurais em diferentes formatos, sem a necessidade de estarem moldados aos canônicos acadêmicos vigentes. O espaço busca estimular a reflexão e o debate críticos e livres tão incômodos nos tempos sombrios, em que (sobre)vivemos.

Dante Lucchesi escreve sobre a grande mídia e seu pacto com os interesses antidemocráticos do capitalismo.

Texto de Albino Rubim que discute caminhos de enfrentamento para a questão da centralidade da cultura e o papel da transversalidade.

Embora não se possa dizer que o país não tenha experimentado um desenvolvimento capitalista, ou até por isso mesmo, o que se assistiu nestes mil dias de governo Bolsonaro foi uma sucessão interminável e intolerável de atrocidades e aberrações. Texto por Dante Lucchesi.

Reflexões de Albino Rubim sobre os baianos na olimpíada e toda riqueza cultural que pode existir na diversidade.

Ao desvelar os possíveis sentidos da democracia, Albino Rubim contribui para clarear por qual democracia se luta em uma frente, que sempre comporta diferenciadas concepções de democracia.

É assim no meu nordeste. Chegou o mês de junho. Queria pensar apenas nos festejos juninos. No “dois pra lá, dois pra cá”. Dançar agarradinho. Decorar a casa. Planejar as comidas, viagens, shows de praças cheias de alegrias, encontros, gente. 

Reflexões de Gleise Oliveira sobre o avistamento de um carro pipa.

Uma reflexão de Gleise Oliveira sobre os novos hábitos de uma população de enlutados e sobre um Estado omisso. "Já temos vacinas, mas o extermínio continua."

Não estamos entendendo nada. O vírus não é apenas a Covid-19 ou novos que estão por vir. O vírus somos nós, pelo gestor Fabiano Piúba.

Por Albino Rubim Galhofamos da mediocridade que ocupou o poder com o governo Bolsonaro. Ela parece acometer muitos membros do governo, como doença altamente contagiosa. Mas cuidado. Não deveríamos rir em um superior desprezo. Primeiro, apesar da mediocridade, eles tomaram o poder executivo nacional, o que implica em alguma competência política, mesmo que acionando procedimentos nem sempre democráticos e republicanos. Segundo, não parece nada sensato desconsiderar a capacidade do adversário. Terceiro, tal atitude tende a supor um abismo entre o atual governo e o comportamento histórico das classes dominantes no Brasil. As dificuldades de relação entre as mal chamadas “elites” e a cultura no país são evidentes. Formadas em uma visão colonizada, via Portugal, depois Europa e mais recentemente Estados Unidos, tais “elites”, com exceções individuais, nunca se preocuparam com a educação e a cultura para além de meras formalidades e de certa atitude ornamental, detectada por alguns autores, dentre eles Carlos Nelson Coutinho. O caráter tardio da universalização da escola pública, só ocorrido no final do século XX no Brasil, e a criação também tardia da instituição universitária no país em pleno século XX, quando a imensa maioria das nações sul-americanos já possuíam universidades, demonstram cabalmente esta falta de preocupação e prioridade com educação, cultura, artes e ciências. Mas não se trata apenas de desatenção, como se busca apontar. Na história, além dos graves atrasos anotados anteriormente, as classes dominantes têm buscado interditar sistematicamente os momentos e movimentos criativos acontecidos na sociedade brasileira. Para não retroceder demasiado na história vamos nos ater à trajetória brasileira pós anos 30 do século XX, quando a burguesia brasileira realizou sua modernização conservadora do país.

Quando todas as atrocidades já são rotinas tidas como normalidades, sob aplauso ou impotência das massas bestializadas, estamos diante de uma catástrofe humanitária de grande proporção. Texto por Rosemberg Cariry .

Albino Rubim escreve sobre a presença escandalosa do ódio e o que restou de ambiente democrático no país, abalado, a ferro e fogo.

O linchamento à Lula e sua família configura uma das maiores e mais vergonhosas campanhas políticas já executadas pela “grande mídia” no país em todos os tempos, afirma Albino Rubim em uma de suas reflexões da quarentena.

Quem é o aldrabão na história? Texto de Fabiano Piúba.

Texto do professor Humberto Cunha sobre as dificuldades de implementação da Lei Aldir Blanc.

Por Albino Rubim Recebi um WhatsApp com o anúncio da data e horário do discurso de Lula. Confesso que não me mobilizei para ouvir o discurso. Em geral, os discursos políticos são cansativos, longos e repetem lugares comuns. Algum tempo depois recebi nova mensagem. Ela trazia o discurso na integra e um breve comentário afirmando ser uma fala de estadista. Elogio nada desprezível em momentos de incessante crítica da grande mídia aos políticos e da mediocridade assolando o cenário político nacional, assaltado pelas milícias e suas violências. Resolvi ver e ouvir o discurso de Lula. Afinal de contas, caberia saber o que Lula disse para ser considerado um estadista. O discurso me impactou. Creio que ele deve ter repercutido em todos corações e mentes democráticos do nosso país. Ele destoa do ambiente de mediocridade, ignorância, ódio, violência e irresponsabilidade, que invadiu a política e os governantes nacionais. O discurso rememorou o melhor do Brasil. Trouxe vida, trouxe preocupação com a população ameaçada pela pandemia e pelo pandemônio, trouxe de volta, ainda que momentaneamente, a grande política, que pensa e busca soluções para grandes problemas nacionais. O discurso ficou distante da pequena política, que se alimenta e submete às pequenezas da vida, prisioneira dos vis interesses imediatos, quase sempre na contramão dos interesses públicos da sociedade. O discurso nos trouxe de volta Lula em excepcional forma. Inteligente e conhecedor das grandes questões nacionais. Articulado e ágil politicamente. Não trouxe Lula de antes da injusta prisão para exclui-lo de modo arbitrário da eleição antidemocrática de 2018 e possivelmente da presidência da república, conforme indicavam todas as pesquisas eleitorais realizadas na época. Não trouxe Lula anterior ao sofrimento infringido a ele e toda sua família pela perseguição implacável da grande mídia.

Texto de Emiliano José. Nas flutuações da conjuntura, há uma constante quando pensamos na mídia: nunca se afasta das classes dominantes. O editorial contra Dilma e a posição em relação ao teto de gastos são exemplos.

Dante Lucchesi fala sobrea grande mídia impressa e sua tentativa de manter vivo o discurso da Lava Jato.

Texto de Albino Rubim sobre a infeliz atualidade vivemos na cultura no Brasil. Hoje, as três tristes tradições retornam com inominável ferocidade. Velhas noções ainda servem para desvelar o novo velho país. Terrível atualidade.   

Nesta edição, o Enecult, atualmente o maior e mais tradicional encontro de estudos da cultura no país, pretende tensionar temas necessários à esse momento contemporâneo, a fim de reiterar a importância dos papéis desempenhados pela ciência, pela educação e pela cultura.

Os espaços orgânicos da Cultura no Brasil, por Fabiano dos Santos Piúba. Uma percepção abrangente e democrática de espaço cultural na Lei Aldir Blanc.

Texto de Dante Lucchesi sobre editorial “Jair Rousseff” da Folha de São Paulo em 21 de agosto.

Por Renato Ortiz Victor Klemperer, em seu diário agônico sobre a vida cotidiana na Alemanha nazista, descreve com inteligência e argúcia a emergência de um tipo de linguagem que ele denomina de LTR (Linguagem do Terceiro Reich). Ela invade os jornais, os comunicados oficiais, as revistas, penetra os diálogos das pessoas nas casas e na rua. O autoritarismo transcende o seu núcleo de origem (o Estado e o partido) impregnando a sociedade em seus lugares recônditos. Creio que é possível dizer que o novo totalitarismo tupiniquim faz algo análogo. Nos discursos do presidente da República e seus seguidores, uma forma de linguagem emerge — agressiva, repetitiva, ecoando, sobretudo nas redes sociais, o seu barulho ensurdecedor. Vou denominá-la de LFB (Língua Franca do Boçalnarismo). Não me refiro apenas ao linguajar chulo empregado pelos políticos e seus acólitos, no qual a grosseria tornou-se recurso retórico recorrente. Chulo é adjetivo, interessa-me o substantivo, isto é, uma forma de se expressar que, aos poucos, se constitui em maneira de apreensão do mundo, enfim, uma linguagem. O que a delimita, qual a sua identidade? Uma linguagem não se refere apenas a algo fortuito, à simples expressão de alguma coisa. Ela revela uma “estrutura” de pensamento. O objetivo da LFB é tornar banal sua própria aberração. Todo sistema autoritário almeja a disciplinarização da linguagem; ela exprime, no domínio público, as virtudes de sua atrocidade. Uma de suas características é o insulto, geralmente acompanhado de palavrões, provocações e ofensas. “O que esses caras fizeram com o vírus, esse bosta desse governador de São Paulo, esse estrume do Rio de Janeiro” (fala do presidente da República); “Por mim botava esses vagabundos todos na cadeia.

Por Antonio Albino Canelas Rubim Em outros tempos, quando a internet se mostrava ao mundo, quando ele se inaugurava globalizado e quando todos refletiam sobre a novidade da globalização, escrevi um texto que discutia distinções entre a sociabilidade tecida na modernidade e aquela que florescia na contemporaneidade. Parece que aquelas distinções ainda ganham sentido para poder bisbilhotar os tempos e espaços da atualidade, contaminados pela pandemia, que hoje nos atormenta e nos adoece. A pandemia atinge a sociabilidade moderna. Ela impõe aos governos responsáveis e aos não genocidas distanciamento social e quarentena. Ou seja, a modernidade, em peculiar modalidade de viver a sociedade, entra em cheque mate ante a disseminação pandêmica do novo coronavírus. Com espaços/tempos presenciais de convivência pública interditados ou fragilizados, a sociabilidade moderna sofre intenso abalo. Em momentos normais, ela se alimenta de convívios em presença nas ruas, praças, parlamentos, estádios, teatros, cinemas, galerias, museus, bares, restaurantes e outros ambientes públicos de compartilhamento social. Sem eles, a modernidade e sua sociabilidade parecem se esvair. A política, renascida em cara nova na modernidade, tempos depois de sua invenção grega, emerge com emblemático exemplar de acontecimento datado e marcado à ferro e fogo por traços da sociabilidade moderna. Seus formatos socioexistenciais denunciam sua patente filiação à sociabilidade da modernidade. Ela emerge em debates no parlamento abertos ao público, passeatas, barricadas, manifestações de rua, comícios eleitorais ou não e em diversos atos públicos, que requerem a presença e a convivência de agentes políticos, cidadãos e públicos. A política moderna é filha e criadora da sociabilidade moderna. Daí um de seus desconfortos nos tempos contemporâneos. Hoje, colocadas em recesso quase todas as modalidades modernas do conviver público, resta a restrita presença, quase compulsória, no espaço privado.

Por Antonio Albino Canelas Rubim* No início de maio, não sei precisar quando, comecei a sentir fortes cansaços a qualquer esforço realizado. Pouco a pouco o quadro se agravou. Mais cansaço e mais falta de ar. Imaginei ser algo relacionado ao coração, tão afetado pelos desmandos no Brasil e pelas dores de tantas mortes em crescendo devido à pandemia. Resolvi consultar um médico. No cardiologista exames corporais feitos e depois mais exames para fazer. Entre eles uma tomografia de tórax, solicitada pela atenção, sensibilidade, cuidado e urgência vista pelo cardiologista. Assim, começa este relato de uma internação nos ambientes da COVID-19. Dia 13 de maio de 2020 – terça-feira Logo cedo exame de sangue e outros afins. Depois, horas e mais horas esperadas em uma clínica particular para fazer a tomografia. Eram 12 horas quando fiz o exame, sob muitas desculpas por tanta demora: quase quatro horas. Motivo para tanto tempo passado: muitos exames marcados sem considerar os novos procedimentos de higiene demandados pelo coronavírus. Passo na casa de meu irmão médico, que trata de exames de imagem. Após o almoço, em casa, recebo a sugestão dele e do médico, que analisou o exame na clínica e com quem meu irmão conversou. Diagnóstico dos dois: pneumonia suspeita. Melhor buscar uma emergência médica para saber da necessidade ou não de internação. A grande ameaça paira no ar: suspeita de COVID. Na emergência do Hospital Português socorros iniciais, medicações e receber oxigênio, pois se verificou que ele estava bem abaixo das condições normais necessárias para ventilar bem o corpo. Depois o veredicto: internação necessária e imediata por suspeita de ter o corpo e os pulmões invadidos pelo coronavírus. Sou levado para ala especial para suspeitos e pacientes de COVID. Não posso ter acompanhante. Meu filho mais velho, Iuri, que estava comigo no hospital, deixa minhas roupas, pois imaginávamos que a internação seria uma possibilidade nada remota.

Por Antonio Albino Canelas Rubim* Inúmeras iniciativas, em todo mundo e no Brasil, tentam decifrar os múltiplos enlaces existentes entre cultura e pandemia. No país, a conjuntura têm sido sobredeterminada pela onipresença da pandemia conjugada ao pandemônio, provocado pelo (des)governo federal, que age no dia-a-dia polarizando tensões na sociedade. A atitude agressiva de Messias Bolsonaro alimenta o pandemônio, causado pela perversa conjunção de crises política, econômica, social, ambiental e cultural. O caos socioeconômico deriva da imposição desenfreada da ideologia (ultra)neoliberal. Ela amplia a desigualdade social, destrói direitos dos trabalhadores e da população e agride a soberania nacional. Em suma, a conjuntura brasileira combina pandemia e pandemônio na atualidade. O Brasil vive ou sobrevive em um cenário de notável complexidade, muito volátil, com graves repercussões sobre a capacidade de previsibilidade de cenários prospectivos minimamente consistentes. A institucionalidade democrática encontra-se cada vez mais debilitada, frente aos ataques da gestão Bolsonaro e à complacência e até mesmo covardia de algumas instituições, que deveriam zelar pelo comprimento da Constituição Federal e pela defesa da democracia. Sem respeito às instituições e sem funcionamento adequado delas, a possibilidade de previsão de futuros fica totalmente comprometida. Já não existem os parâmetros das legislações e das instituições para balizarem os limites, legais e possíveis, da atuação dos agentes políticos. Em lugar do pacto democrático, instala-se cada vez mais uma situação de anomia. Nela impera a situação do salve-se quem puder e a violência do mais forte. Enfim, a ditadura teima em aparecer como horizonte, conforme o único plano real da dupla Messias Bolsonaro / Paulo Guedes.

Por Cláudia Leitão* No dia 26 de julho Celso Furtado fez 100 anos. Falo no presente porque há pensadores que não morrem. Suas reflexões, pelo contrário, ganham ainda mais profundidade e oportunidade e atualidade.  Além de seu vasto legado intelectual, Furtado foi um brilhante administrador público (com passagens memoráveis nos ministérios do Planejamento e da Cultura), um planejador com sólidas convicções regionais (criador da SUDENE, do BNDES/BNB), além de um articulador e gestor nas Relações Internacionais (vide sua passagem pela CEPAL e UNESCO). A obra de Furtado expressa o diálogo profícuo das ciências econômicas com as ciências sociais básicas, a filosofia, as tecnologias, as artes e a cultura, num esforço maior de compreender as consequências dos modelos econômicos para os países de economia dependente. O Seminário virtual “100 anos de Celso Furtado: que desenvolvimento queremos para o Brasil?”, que acontecerá nos dias 12 e 13 de agosto, fruto da parceria entre o Iplanfor/ Observatório de Fortaleza e a Assembleia Legislativa / Universidade do Parlamento, tratará sobre  capitalismo, globalização, desenvolvimento, planejamento, políticas públicas, ciência  & tecnologia, cultura, reunindo  gestores,  professores, especialistas e demais lideranças brasileiras para pensar o Brasil. Os desafios não são pequenos e, por isso, necessitamos de contribuições diversas, que garantam a sustentabilidade do nosso projeto de desenvolvimento. “O esvaziamento da atividade política engendra o niilismo ou a revolta, e não a libertação do homem. A atividade política é condição necessária para que se manifeste a criatividade no plano institucional e para que se inovem as formas sociais”.

Por Cláudio Guedes* Hoje é centenário de nascimento de Celso Furtado, o grande intelectual e economista brasileiro. Uma data plena de significados. Celso Furtado foi um dos grandes pensadores do país. Muitos o definem com um “construtor”, alguém que elaborou (construiu) a partir de reflexões próprias uma visão, uma idéia, do país e dos seus desafios históricos. Acho que é uma boa escolha, mas prefiro defini-lo à maneira de Ezra Pound, o polêmico intelectual e poeta americano, autor do fundamental “ABC of Reading”, de 1934 (“ABC da Literatura”) . Na obra, Pound classifica os escritores em cinco categorias: inventores, mestres, diluidores, bons escritores, belles lettres e lançadores de moda. Furtado, que não foi apenas um intelectual, não foi apenas um escritor, mas um homem de ação, foi sem nenhuma dúvida um “inventor”, a mais alta categoria de um intelectual, de um pensador. Inventou uma forma de pensarmos o Brasil a partir de sua obra seminal, de 1959, “Formação Econômica do Brasil“. Um estudo original sobre o processo histórico de constituição da economia brasileira. Fui procurar na estante do apto em São Paulo o meu exemplar que, acho, continha as anotações que fiz ao ler – mania de jovem leitor. Não achei. Provavelmente emprestei para alguém que tanto gostou que o reteve para si ou foi doado numa das vezes que fizemos doações de livros importantes às bibliotecas públicas. Prática que temos feito com frequência – livros precisam circular, em estantes quando não são usados para o trabalho são peças de utilidade duvidosa. A leitura do livro, em meados dos anos 70, teve um impacto singular na minha formação intelectual.

(texto publicado incialmente https://medium.com/@cpaiva.cultura em 23 de junho) Por Carlos Paiva A cultura brasileira encontra a pandemia da COVID-19 herdando dois graves problemas: tentativas de criminalização das políticas culturais pela base do governo Jair Bolsonaro e a ausência de um sistema de fomento nacional que consiga abarcar a heterogeneidade do campo e da diversidade regional do país. Somado a este contexto adverso, a cultura é, em todo o mundo, um dos setores mais afetados pela pandemia. Foi um dos primeiros a fechar, será um dos últimos a abrir. Mesmo quando abrir, sofrerá restrições no formato de abertura por tempo considerável. Como agravante, em relação a outros setores em situação similar (o turismo, por exemplo), a cultura possui alta informalidade e intermitência em suas relações de trabalho. O IBGE indica que, em 2018, 44% dos trabalhadores são por conta própria, bem acima da média de 25,4% para toda a economia. (IBGE, 2019) Essa precariedade se reflete nas reservas financeiras de quem trabalha no setor: pesquisa do OBEC-BA aponta que 60% dos indivíduos respondentes possuem recursos para se manter apenas por até três meses. (CANEDO et al, 2020) Ao mesmo tempo, nunca a produção artística e a cultura foram tão essenciais. Imaginem essa quarentena sem livros, música, filmes ou histórias. Cultura e arte como entretenimento, como refúgio para saúde mental, e também como atividade que nos (re)conecta em tempos de isolamento social, que nos alimenta das questões que atravessam os tempos e se fazem presentes, porque tratam do que nos faz humanos.

Por Antonio Albino Canelas Rubim

Palavras, palavras, palavras.

Eu já não aguento mais

Gonzaguinha

Por Bruno do Vale Novais Qual é o meu lugar de fala? Essa expressão tornou-se corriqueira nas argumentações acadêmicas da contemporaneidade, principalmente em meio aos espaços de análise dos discursos, das comunicações e das culturas que defendem propostas de descolonização cultural. Nesses, os vocábulos em tela têm sido utilizados como uma espécie de “grito de guerra” para advogar que o pensamento da dita civilização ocidental é colonizante, imperialista e eurocêntrica. É muito sensato pensar em meu lugar de fala. Mas, é mais importante, sobretudo, pensar nos meus lugares de escuta e nos meus lugares de conversa. Ciente que sou um acadêmico em formação – um aluno pesquisador do curso de doutorado, que estuda diplomacia cultural do Estado brasileiro na atualidade – ainda não me sinto à vontade para exercer o meu lugar de fala na própria universidade. Não conheço a fundo os pormenores da formação e organização da universidade no país, mas sinto – com pesar – que há uma hierarquização das falas, das escutas e do poder no que concerne aos seus emissor e receptores. Precisamos descolonizar as escutas nos meios acadêmicos. Sinto-me integrante de uma nova geração de pesquisadores a qual têm ânsia de expor o que realmente pensa a respeito de seus objetos de estudos, da política, da sociedade, da cultura, da universidade, da economia… Muitas vezes, nas entrelinhas dos discursos de outrem, notamos implícitas punições aos argumentos e reflexões contrários aos hierarquicamente superiores a nós no âmbito universitário – o que é um grande empecilho ao desenvolvimento da livre construção e reconstrução do pensamento no âmbito propício e vocacionado para tal que é a universidade.

Por Fabiano Piúba* Tenho dito que estamos em estado de conferência nacional de cultura. Um estado de espírito, um estado de ânima e um estado político de encontro e movimento. Num contexto de isolamento social, nem nós esperávamos por isso. Emergiu de uma mobilização emergencial em torno de um projeto de lei de iniciativa das formidáveis Benedita da Silva e Jandira Feghali e foi ganhando corpo sensível e político com força e ternura, reacendendo um tanto de encantamento pela cultura e um caldo de resistência por meio da arte. A arte é o que resiste, já pensou Deleuze. Assim, assado, estamos também em estado de resistência. A cultura está viva. A Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc é fruto de uma construção social e autoria coletiva. Gosto de pensar a cultura como saber/fazer comum, portanto, a cultura como solidariedade e elemento (água, terra, fogo e ar) de transformação de vidas e transgressão de realidades. O que estou querendo dizer é que este estado de conferência nacional de cultura é um ato político solidário para com o Brasil. Cabe a nós manter essa chama acessa como uma chamada que vai além do emergencial, pois a execução desta lei é estratégica para as políticas culturais. Ela exige de nós um plano de gestão nos estados e municípios numa ação integrada com os conselhos estaduais e municipais de cultura, com os fóruns de linguagens artísticas e dos segmentos culturais, com as redes do Cultura Viva e Pontos de Cultura e com os coletivos espalhados pelo país. Estamos diante de uma oportunidade real de desenvolver o Sistema Nacional de Cultura e a ideia de um MinC Popular parece ser potente. Com a sua extinção, o MinC somos nós. Não podemos fazer feio e tampouco falhar. Temos que ser exemplares na execução, nos resultados e impactos da aplicação da lei nos estados e municípios como uma ação primordial dos artistas, agentes e espaços culturais existentes e resistentes no Brasil.

Vivemos muito mais do que uma tragédia sanitária. Os descontroles autoritários do governo trazem uma deterioração do país em todos os sentidos. As instituições públicas são achacadas, a ciência é negada, e o social, atropelado por um economicismo insensível. O resultado tem se evidenciado na atual crise política, social e econômica em que o Brasil se encontra. Mais do que isso: há um processo de destruição de valores construídos em torno dos direitos das coletividades e de condições para um país mais justo para todos. Sem perdermos a capacidade de ficar perplexos diante de tudo isso, ainda recebemos cada notícia sobre as interferências no setor da Cultura com constrangimento, indignação e revolta. Temos visto os cargos do setor serem ocupados por pessoas com pautas meramente ideológicas e o fisiologismo político dominantes em setores do atual governo; sem qualquer experiência na área cultural ou na administração pública – uma evidência de que se trata tão somente de aparelhar as instituições, e um alinhamento à uma visão antidemocrática e preconceituosa do atual governo. Ao defender a pluralidade da sociedade brasileira, as políticas públicas culturais são também a execução do que está previsto na Constituição Federal, ou seja, garantir amplamente o exercício dos direitos culturais e promover e valorizar as criações artísticas e científicas, a memória, as práticas e manifestações culturais de todos os grupos que expressam a diversidade étnica e cultural da nação brasileira. E é por isso que o setor da Cultura vem sendo desmantelado. Já em 2016, a tentativa de extinção do Ministério da Cultura-MinC dizia respeito à intenção dos governantes de reduzir o papel do Estado na área, que se desenrolou em um projeto de esvaziamento das políticas dentro da administração direta.